Quem nunca ouviu nos bastidores ou púlpitos de algumas igrejas e seitas ditas “cristãs” coisas como “a lei foi abolida, porque vivemos no tempo da graça”, ou até mesmo uma gama de regras mirabolantes como “homem crente não pode ter barba e cabelo comprido; ai das mulheres que usam calças e cortam seus cabelos” e demais coisas do tipo? Pois então, meus irmãos, esses dois tipos de afirmação estão errados na sua totalidade e são extremamente prejudiciais à imagem da igreja local, pois trabalham o Evangelho segundo o seu próprio querer e os devaneios da sua mente carnal.
Nas igrejas locais, há alguns grupos de pessoas que se destacam no assunto lei x graça, eles são os legalistas e os antinomianos. Ambos os grupos buscam, de maneira equivocada, falar e pregar a respeito da lei de Deus conforme a sua construção teológica errônea e, na maioria das vezes herética, os ensina.
O grupo dos legalistas, que não é pequeno, tenta anular a graça divina ao buscar a retidão mediante a religiosidade e as obras da lei, vendo-as como parte do fundamento de nossa aceitação diante de Deus e gosta muito da exaltação de si pelas suas obras e costumes. Até mesmo inventam regras que não condizem com os ensinos bíblicos sobre vestimentas, alimentação ou apreciações artísticas. Isso tudo pressupõe que, mesmo havendo a revelação especial da parte de Deus que é o seu Filho, Jesus Cristo e, a salvação sendo única e exclusivamente pela graça (Ef 2.8), há uma boa parte dos crentes que ainda crê na salvação por obras.
É óbvio que, devido a nossa natureza pecaminosa, mesmo após a regeneração, ainda temos a tendência de querer colocar Deus de joelhos e buscar em nós mesmos algum mérito salvífico, pois
É verdade que no nosso coração há combustível suficiente para nos colocarmos em oposição à graça de Deus em Jesus Cristo, e confiarmos em nossa própria justiça, em nossas boas obras tanto para sermos aceitos por Deus e perdoados dos nossos pecados, como também para podermos continuar desfrutando do seu amor. 1
Já o grupo dos antinomianos, sendo inimigos da fé cristã assim como os legalistas, têm a sua confissão completamente avessa à lei de Deus, pois acreditam que Jesus aboliu a lei e a graça a torna completamente inválida, pois o amor de Deus não implica em justiça. Quando a eles, Judas 1.4 diz que “se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus”.
É de uma lógica extremamente pífia deduzir que, como a graça especial de Deus revelada em Cristo é a revelação máxima do seu amor, o seu padrão moral diminuiria ou alteraria em algum aspecto. Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8) e, a sua palavra não muda. Vale lembrar também que, o próprio Senhor Jesus disse que não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la (Mt 5.17).
É muito triste ver como a graça de Deus tem sido desvalorizada e escarnecida de geração em geração pelas pessoas, o que me faz lembrar do conceito de “graça barata” ensinado por Dietrich Bonhoeffer na sua obra “Discipulado” quando diz que
A graça barata é a inimiga mortal de nossa Igreja. […] A graça barata é graça como resto de estoque, perdão barateado, consolo barateado, sacramento barateado; é graça como riqueza inesgotável da Igreja, graça que mãos levianas gastam sem vacilo nem limite; é graça sem preço, sem custo. […] A graça barata, em vez de justificar o pecador, justifica o pecado. Desse modo, resolve tudo sozinha, nada precisa mudar e tudo pode permanecer como antes. […] A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento do pecador, é o batismo sem disciplina eclesiástica, é a comunhão sem confissão de pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, é a graça sem cruz, é a graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado. 2
A Lei de Deus é uma manifestação da sua graça e do seu cuidado com a humanidade, pois, o Senhor poderia ─ e teria todo o direito em fazer ─ ter deixado a humanidade de lado para que ela mesma se extinguisse da face da Terra. Entretanto, ele graciosamente nos revelou a sua lei moral para que tenhamos um referencial do seu ser para o imitarmos. Isso é sinal de cuidado. Isso é sinal de amor. Então, engana-se completamente aquele que diz que a graça foi revelada somente no Novo Testamento, assim como se engana quem quer utilizar da sua “forma comportamental” legalista para diminuir o seu semelhante.
Devemos observar a lei do Senhor porque ela é perfeita, e restaura a alma (Sl 19:7). No entanto, como cristãos, devemos observá-la tal qual ela é e foi escrita (Ex 20.1-17), não como as fantasias dos legalistas são pregadas. Ela é o nosso referencial para sabermos o que é pecado e desagrada a Deus, pois sem ela, não saberíamos o que é o pecado (Rm 7.7-25).
Para uma melhor reflexão sobre a lei, basta analisar se as seguintes referências continuam ou não sendo pecado:
(1) ter outros deuses; (2) criar imagens representando qualquer pessoa da Trindade com o intuito de adoração; (3) tomar o nome de Deus em vão; (4) desonrar o dia de descanso; (5) desonrar pai e mãe; (6) assassinar; (7) adulterar e/ou prostituir; (8) roubar; (9) inventar mentiras sobre as pessoas; (10) cobiçar tudo o que o seu próximo tem.
Como todos sabemos, as dez referências acima são consideradas como pecado. Mas, afinal de contas, como podemos saber que são pecado? Através da lei de Deus revelada a nós, o que faz com que todo o discurso antinomista de graça barata seja anulado na sua totalidade.
Os mandamentos possuem implicações práticas negativas e positivas, são dotados de princípios que nos orientam a observar a santidade de Deus e a andar como o nosso Senhor Jesus Cristo andou, pois ele a cumpriu perfeitamente. Então, quando pensamos nos legalistas e nos antinomianos, J. I. Packer acerta com maestria quando diz que
Se nos lembrarmos que, como crentes, servimos a Deus não para adquirirmos a vida, mas por já termos a vida, como seus filhos e filhas já justificados e adotados, então não cairemos no legalismo que esses mestres temem; antes, veremos a lei de Deus como o código de normas da família e nos regozijaremos em procurar vivê-la desta forma, agradando ao nosso Pai celeste, que nos amou e nos salvou. 3
Tudo isso leva à conclusão de que o amor é definido pela Lei (Rm 13.10) e que é importante guardar os mandamentos de Deus (1 Co 7.19). Portanto, busquemos, através da graça e misericórdia de Deus, uma vida digna, que represente a santidade do Evangelho de Jesus Cristo através do bom testemunho e sem negar os princípios bíblicos.
Para encerrar, observemos as palavras de conselho do reverendo Alan Rennê:
Devemos buscar compreender cada vez mais a natureza da obra graciosa do nosso amado Redentor. Nós podemos ter nossas mentes iluminadas pelo Espírito Santo, a fim de compreendermos cada vez mais e experimentar, de modo intenso, os efeitos de nossa união com o Salvador. O resultado inevitável será uma nova compreensão da lei, um novo amor pela lei e uma nova obediência à lei, mediada pelo evangelho. Recebemos a lei, não das mãos de Moisés, mas das mãos de nosso Senhor Jesus Cristo. 4
Soli Deo Gloria!
Por Alex Eduardo de Bastiani
Referências:
1 RENNÊ, Alan. Os Puritanos e a Lei Moral: Uma Resposta ao Antinomianismo (p. 5). Edição do Kindle.
2 BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 1ª Edição. São Paulo: Mundo Cristão, 2016, p. 19,20.
3 PACKER, J. I. em http://www.monergismo.com/textos/lei_evangelho/graca_lei_packer.htm
4 RENNÊ, Alan. Os Puritanos e a Lei Moral: Uma Resposta ao Antinomianismo (p. 35). Edição do Kindle
Imagem: Adobe Stock

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